Crônicas Mais Lidas

A Maldição do Sapato Novo.

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Falta de um motivo.

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O Menor Conto de Fadas da História.

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Marcou? Marcão.

 Na mesa do bar, um grupo de amigos conversa alegremente quando um deles começa uma história:
-Ontem levei uma gatinha no motel e adivinha quem encontrei? O Marcão.
    Marcão era um cara que vivia se gabando do seu carrão, da sua bela casa e da sua linda mulher. Esses caras narcisistas que acham que o que eles têm é melhor que o de todo mundo. Mal podia ver um lançamento, de qualquer produto que fosse, lá se ia o Marcão correndo comprar. Vivia sem grana, mas nunca admitia.
    Usava o cartão de crédito como um escudo. Com ele, Marcão se escondia dos seus problemas. Não comia bife em casa, mas sempre de celular novo. A torneira precisando trocar a muito tempo, mas o Ipod era intocável. Você, com certeza, conhece alguém assim. Uma vida de aparências.
    Muitos invejavam o Marcão. As garotas sempre corriam atrás dele, apenas as fúteis. Todos o achavam interessantíssimo, menos os que já o conheciam. Marcão era considerado de longe: Um exemplo. De perto: Um desastre. Ele sempre soube disso, mas não podia aceitar. Seria o fim do seu mundo perfeito.
    Voltemos ao bar e a história.
-Então, entrei no motel e já vi o carro dele estacionado na porta de um dos apartamentos. No começo fiquei na dúvida se era mesmo o carro dele. Espiei pela janela e vi o DVD novo que ele faz questão de dizer que tem em qualquer conversa, tenha ou não á ver com DVDs. Não tive dúvida. Roubei o DVD dele. Tá ali no meu carro. A hora que ele chegar, eu vou convidar ele pra assistir um DVD no carro dele. Só para ver a reação. Depois devolvo.
    Alguns minutos depois entra Marcão, com seu ar esnobe de quem quer toda atenção.
-E aí Marcão! Como tá essa força?
-Muito bem. Acabei de comprar um aparelho de DVD novo. Ultimo lançamento nos Estados Unidos. Toca MP3, WMP, AVI, THC, LSD e IPTU. É lindo.
-Nossa cara, mas você não comprou um esses dias. (todos tentando conter o riso)
-Pois é rapaz. Ontem levei minha mulher no cabeleireiro e fui pra casa a pé. Deixei o carro com ela. Não é que roubaram o Som do carro na frente do cabeleireiro. Ela chegou em sua casa arrasada, toda descabelada, coitada. Achou que eu ia ficar muito triste com ela. Mas que nada. Tô feliz. Pude comprar outro bem melhor.
    Todos engoliram o sorriso e nunca mais se falou no DVD.
    Outra do Marcão quem me contou foi um amigo em comum. Estava toda turma reunida, quando ele veio desafiar todos que estavam na mesa:
-Duvido seus franguinhos, que algum de vocês tenha capacidade de me contar uma história triste e engraçada ao mesmo tempo.
    Sua mulher que odiava esse tipo de exibicionismo ficou notavelmente irritada.
-Vamos lá. Duvido que qualquer um de vocês consiga me contar uma história triste e engraçada ao mesmo tempo. Alguém acha que é capaz? Talvez nenhum de vocês tenha essa capacidade.
    Os amigos já estavam quase contando a história do DVD, quando a mulher do Marcão disse:
- O teu chefe tem um pinto ainda menor que o teu.
    Marcão, que até esse momento estava gargalhando ao tirar sarro dos colegas, congelou. Houve uma explosão de risadas entre o pessoal e Marcão foi embora cabisbaixo. Deixou a mulher e o carro e foi embora a pé.
    Dois dias depois ele se matou. Talvez não tivesse graça mesmo. Essa era vida de Marcão. Tão metido que morreu de desgosto ao perceber que sua vida não era um mar de rosas. Marcou.


Classificados
Vende-se DVD de carro seminovo. Preço a combinar.

O menor conto de fadas da história.


Era uma vez, um País de faz-de-conta.
Na ultima sexta feira a princesa chamou a fada madrinha e disse:

-Madrinha, eu quero que você transforme toda pessoa má, que existe no mundo, em sapo.

-Que seja feito.

Plim. Aconteceu. Ninguém virou sapo, mas a princesa aprendeu que pessoas totalmente boas, e totalmente más, só existem em contos de fadas e em Brasília. Como era sexta feira todos estavam de folga e ninguém foi feliz para sempre.

O Chato


-Odeio quando usam essas roupas moderninhas. Porque as pessoas não se vestem como pessoas?
-Prefere um estilo mais clássico e social então?
-Odeio quem anda como um pinguim. Todos esses acessórios... Para que?
-Ontem fui ao cinema ver 2012.
-Nossa odiei esse filme. Filme vazio. Se não fosse pelos efeitos especiais...
-Depois fui ao Mcdonalds. Adoro o Mc.
-Odeio. Aquele molho especial parece creme de catarro. Cara como eu odeio Mcdonalds.
-Você é meio estranho. Depois peguei o carro e voltei pra casa. O trânsito tava meio agitado.
-Cara! Odeio dirigir. Odeio os babaquinhas que ficam se achando com seu carrão. Também me irritam aquelas piriguetes que não podem ver um playboy que já vão logo se assanhando.
-Meu, como você é negativo. O que mais você odeia?
-Odeio essa sociedade animalesca, odeio futilidades, odeio metidos á intelectualóide, odeio consumidores, vendedores, caixas de banco, bancos de praça, ônibus, moto, povo, shopping, parque, gordura, leite, chefe e mais algumas coisinhas que não lembro agora.
-Caramba, não tem nada que você goste.
-Claro que sim. Adoro falar mal das coisas que odeio.

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

O Cavaleiro e o Amuleto.


Essa é a história de um cavaleiro da idade média. Não lembro de que país era nem a que reino pertencia, mas lembro de sua sina.
O cavaleiro era uma pessoa não muito boa. Ele era politicamente bem incorreto. Nunca havia vencido uma batalha de forma limpa. Sempre teve vontade de lutar da maneira correta, mas não tinha talento e acabava sempre encostado na parede. Na hora que batia o desespero fazia qualquer coisa para ganhar. Assim conseguiu algumas vitórias e muitas derrotas. As vitórias tinham um gosto amargo. O gosto amargo de não se fazer a coisa certa. O medo também o atrapalhava. O medo de falhar.
O cavaleiro desde muito cedo foi visto como um jovem com enorme potencial. Um eterno potencial que nunca foi nem seria atingido. Isso lhe dava a sensação de que tudo que ela fazia era uma grande e enorme farsa. Que nunca teve chance de ser quem todos achavam que ele seria.
Até que um belo dia ele achou um amuleto. Por algum motivo ele amou o amuleto desde a primeira vez que percebeu que a peça lhe pertencia. O amuleto funcionava como uma fonte de energia. Na presença do amuleto tudo era mais gostoso. Tudo ganhava um sentido imperceptível para o cavaleiro até então. O amuleto passou a ser a vida dele. Seu presente e seu futuro. O passado, de alguma forma estranha, tinha deixado de existir. O amuleto ensinou-lhe que a vitória limpa podia existir.
O tempo foi passando e o amuleto parecia que estava perdendo a sua força. Já não trazia toda felicidade de outrora. Ainda assim ele sabia que amava aquele objeto de luz. Certo dia o cavaleiro pensou que talvez sua jóia precisasse de um tempo para recuperar tudo que já havia extraído dela. E ele esperou. Com muita dor ele esperou. Sem seu amuleto ele já não era mais nada. Nem se lembrava de como era antes da sua fonte de luz aparecer. As derrotas voltaram a acontecer. Mas ele sempre teve uma convicção: “Ele vai voltar. Fomos feitos um para o outro. Em breve, vai voltar.”
Os dias foram passando e o amuleto, ou a imagem que ele ainda tinha do amuleto, foi ficando cada vez mais distante. “Não quero mais viver” ele pensou. Pensou porque tudo que ele tinha era seu amuleto e sua dignidade. Quando o objeto se foi, ele se afundou tanto em suas próprias frustrações. Esqueceu da lição sobre vitórias limpas e mergulhou num poço sem fim. Acabou perdendo também sua dignidade. Nada mais restava.
Um dia remexendo em um casaco velho encontrou a sua peça rara e chorou. Chorou porque percebeu que seu amuleto sempre esteve ali e ele deixou de usá-lo. Não por opção, mas porque não sabia mais usá-lo. Tanto tempo afastados deixaram o cavaleiro sem rumo. Ele não confiava mais que poderia vencer o menor obstáculo que aparecesse. Em certo dia o cavaleiro, que já andava depressivo por não conseguir mais compreender o porquê de seu amuleto não funcionar, pensou que talvez devesse deixar o ele ir embora. Talvez para a posse de algum cavaleiro que merecesse ser dono de tamanha dádiva. Foi o pior momento da sua vida. Ele sentiu como se lhe arrancassem o coração do peito. Nada mais fazia sentido. Foi atrás da sua razão de viver. Sem essa razão não havia mais objetivos na vida. Ele sabia que se arrependeria muito se isso acontecesse.
Ele chorou, esperneou, mostrou que poderia ser feliz se tivesse seu amuleto de volta. O amuleto voltou para suas mãos. Depois disso ele percebeu que o amuleto nunca perdeu sua força. O cavaleiro que já não conseguia mais ver o bem que o amuleto fazia a ele. Ele então compreendeu que enquanto ele tivesse vontade de lutar, o amuleto estaria estar com ele. Se ele foi feliz para sempre? Quem sabe dizer?

terça-feira, 10 de novembro de 2009

O diário.

Segunda – Feira:

Agora vai. Essa semana começo meu regime. Tá certo que eu exagerei no fim de semana e por isso tô me sentindo culpada. Mas hoje começo minha metamorfose. Descobri uma dieta ótima. A prima da amiga da vizinha da Carlinha fez e deu certo. Perdeu cinco quilos em uma semana. É a dieta do pula. Come um dia, pula um. Hoje é dia de pular. Essa larva vai virar borboleta.

Terça – Feira:

Está dando certo. Ontem no almoço só bebi dois copos de água. O café da tarde e meia torrada e chá sem gelo. Hoje é o dia de comer. Devo ter perdido dez quilos (sou muito otimista). Amanhã conto como foi. Vou comer só o necessário.

Quarta – Feira:

Aff... Exagerei eu acho. No café da manhã comi duas laranjas inteiras. No almoço três alfaces e um copo de água... Com gelo. Estou péssima. Já ganhei tudo que perdi anteontem. E minha vista está tremendo. Acho que leva um tempo para me adaptar. Hoje é o dia de não comer. To maluca. O chocolate gritou meu nome a noite toda. Mas to determinada.

Quinta-Feira:

Meu médico acabou de sair. Bebi dezesseis litros de água. Parecia um colchão d’água ambulante. Mas to muito satisfeita. Não comi nada. Desmaiei no trabalho. Meu chefe acha que sou hipoglicêmica e me deu um pacotão de doces. Mas eu resisti e não comi. Por isso nem quero imaginar que delícia seria aqueles bombons todos derretendo na minha boca. Sentindo um deles se desfazer e ir absorvendo aquele sabor de castanhas com chocolate. O leve contraste da adstringência da castanha, com seu leve tanino, e a doçura deliciosa do chocolate. Pedacinhos vão se transformando em... Preciso vomitar. Minha barriga agitou. Hoje era dia de comer, mas estou tão cheia de água que não consigo nem imaginar como seria comer.

Sexta – Feira:

Até que enfim um dia bom. Ontem tomei algumas decisões. Percebi que a estética não é tudo. Que é muito mais fácil encontrar um novo marido tendo conteúdo. Não tem nada a ver isso de beleza exterior. O importante é o que trago aqui dentro. Ontem resolvi acabar com tudo. Comecei acabando com tudo que tinha na geladeira. Depois acabei com o que tinha na dispensa também. Sobrou o pacote de doce. Ele vai ser o símbolo da minha mudança. A partir de agora sou uma nova mulher. Tenho autocontrole... Nossa sem perceber enquanto escrevia comi um dos bombons. Nem prestei atenção no gosto. Vou comer só mais um.

Sábado:

Que felicidade. Ontem saí e mexeram comigo e depois ainda recebi uma cantada. Entrei no barzinho e ouvi o cara da mesa gritar: “Garçom, cancela a batata que o filé chegou!” Fiquei corada. Acho que apostar no conteúdo fez toda a diferença. Ele também percebeu toda a confiança que eu estava sentindo sendo uma nova mulher. Depois ele chegou pra mim e perguntou “E aí? Rola?” Eu disse que ia pensar e hoje respondia. Tava louca para dizer que rolava, mas precisava mostrar a nova mulher que sou. Amanhã Conto como foi. To morrendo de fome. Vou comer.

Domingo:

Fui lá toda decidida e disse: “Rola.” Curta e direta. Demonstrei toda minha confiança e conteúdo. Aí ele disse: “Então deita na ladeira que eu empurro! Baleia.” Fiquei chocada. O Pacote de doce também sumiu. Tudo bem, eu dei umas beliscadas. Mas alguém deve ter entrado aqui e comido. Não me lembro de ter sido eu. Estou deprimida. Mas hoje vou exagerar. Amanhã vou começar um novo regime e compenso. Amanhã serei uma nova mulher.