sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Falta de um motivo.


Reza a lenda que havia um senhor muitíssimo frágil. Tão fraco que uma brisa de fim de tarde na nuca o deixava uma semana inteira de cama. Vivia no hospital. Todos os dias. A vida toda foi assim. Seus pais também muito doentes morreram logo que ele fez quatorze anos. Com dezoito conseguiu se aposentar por invalidez e deixou de viver das doações da vizinhança. Aos 20 ganhou um apelido dos internos do hospital: Podrinho. Pode parecer ofensivo para você, mas ele não dava a mínima importância. Eram as únicas pessoas que conversavam com ele.
Voltando à época em que os fatos se sucederam. Agora com 47 era conhecido por Seu Podrinho. Sinal de respeito, ele pensava. Todos os dias ele aparecia no hospital e o diagnosticavam com uma nova doença. Hipertensão, sarampo, cólera, chagas. O Homem era um verdadeiro imã de disfunções, bactérias e vírus. Seu Podrinho nunca teve vida. Sua vida era o hospital e a solidão do seu lar. Nunca se apaixonou, nem se apaixonaram por ele. Levava uma vida miserável.
Certo dia, já não aguentando mais ver o nosso fatídico herói, o médico chefe escalou uma enfermeira para cuidar dele em casa. Ela quase enlouqueceu de tanto trabalho, no segundo dia. Mas algo sem muita explicação aconteceu. Seu Prodrinho começou a ficar menos doente. Em uma semana já conseguia passear no parque. Ir buscar o próprio jornal. Conseguia até mesmo fazer seu próprio café. Logo ele pensou que a enfermeira era um ser iluminado que estava ali para fazer o seu bem. Para lhe confortar e deixar sua miserável vida menos sofrida e até prazerosa em certos momentos. Descobriu que estava apaixonado. Não com uma paixão carnal. Era uma paixão maternal, ela era a mãe que há muito tinha partido. Uma mãe pelo menos 20 anos mais jovem do que ele.
Passado um mês que ele já não apresentava nenhuma alteração, forte e saudável, se exercitando e pensando em começar a trabalhar, ela não veio. Seu Podrinho logo se preocupou. É claro, ela ficou doente. Ele correu para o hospital e ficou esperando abrir. Para sua surpresa quem destrancou a porta foi sua adorada enfermeira. Ele foi logo perguntando o que estava acontecendo. Foi informado que por falta da necessidade da presença dela, recebeu uma ordem para voltar ao hospital. Seu Podrinho ficou cabisbaixo e voltou para casa chutando as pedras que encontrava no caminho. Ele nunca mais voltou ao hospital. Morreu dois dias depois de tristeza e solidão.

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