Crônicas Mais Lidas

A Maldição do Sapato Novo.

Crônicas Mais Lidas

Falta de um motivo.

Crônicas Mais Lidas

O Menor Conto de Fadas da História.

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Marcou? Marcão.

 Na mesa do bar, um grupo de amigos conversa alegremente quando um deles começa uma história:
-Ontem levei uma gatinha no motel e adivinha quem encontrei? O Marcão.
    Marcão era um cara que vivia se gabando do seu carrão, da sua bela casa e da sua linda mulher. Esses caras narcisistas que acham que o que eles têm é melhor que o de todo mundo. Mal podia ver um lançamento, de qualquer produto que fosse, lá se ia o Marcão correndo comprar. Vivia sem grana, mas nunca admitia.
    Usava o cartão de crédito como um escudo. Com ele, Marcão se escondia dos seus problemas. Não comia bife em casa, mas sempre de celular novo. A torneira precisando trocar a muito tempo, mas o Ipod era intocável. Você, com certeza, conhece alguém assim. Uma vida de aparências.
    Muitos invejavam o Marcão. As garotas sempre corriam atrás dele, apenas as fúteis. Todos o achavam interessantíssimo, menos os que já o conheciam. Marcão era considerado de longe: Um exemplo. De perto: Um desastre. Ele sempre soube disso, mas não podia aceitar. Seria o fim do seu mundo perfeito.
    Voltemos ao bar e a história.
-Então, entrei no motel e já vi o carro dele estacionado na porta de um dos apartamentos. No começo fiquei na dúvida se era mesmo o carro dele. Espiei pela janela e vi o DVD novo que ele faz questão de dizer que tem em qualquer conversa, tenha ou não á ver com DVDs. Não tive dúvida. Roubei o DVD dele. Tá ali no meu carro. A hora que ele chegar, eu vou convidar ele pra assistir um DVD no carro dele. Só para ver a reação. Depois devolvo.
    Alguns minutos depois entra Marcão, com seu ar esnobe de quem quer toda atenção.
-E aí Marcão! Como tá essa força?
-Muito bem. Acabei de comprar um aparelho de DVD novo. Ultimo lançamento nos Estados Unidos. Toca MP3, WMP, AVI, THC, LSD e IPTU. É lindo.
-Nossa cara, mas você não comprou um esses dias. (todos tentando conter o riso)
-Pois é rapaz. Ontem levei minha mulher no cabeleireiro e fui pra casa a pé. Deixei o carro com ela. Não é que roubaram o Som do carro na frente do cabeleireiro. Ela chegou em sua casa arrasada, toda descabelada, coitada. Achou que eu ia ficar muito triste com ela. Mas que nada. Tô feliz. Pude comprar outro bem melhor.
    Todos engoliram o sorriso e nunca mais se falou no DVD.
    Outra do Marcão quem me contou foi um amigo em comum. Estava toda turma reunida, quando ele veio desafiar todos que estavam na mesa:
-Duvido seus franguinhos, que algum de vocês tenha capacidade de me contar uma história triste e engraçada ao mesmo tempo.
    Sua mulher que odiava esse tipo de exibicionismo ficou notavelmente irritada.
-Vamos lá. Duvido que qualquer um de vocês consiga me contar uma história triste e engraçada ao mesmo tempo. Alguém acha que é capaz? Talvez nenhum de vocês tenha essa capacidade.
    Os amigos já estavam quase contando a história do DVD, quando a mulher do Marcão disse:
- O teu chefe tem um pinto ainda menor que o teu.
    Marcão, que até esse momento estava gargalhando ao tirar sarro dos colegas, congelou. Houve uma explosão de risadas entre o pessoal e Marcão foi embora cabisbaixo. Deixou a mulher e o carro e foi embora a pé.
    Dois dias depois ele se matou. Talvez não tivesse graça mesmo. Essa era vida de Marcão. Tão metido que morreu de desgosto ao perceber que sua vida não era um mar de rosas. Marcou.


Classificados
Vende-se DVD de carro seminovo. Preço a combinar.

O menor conto de fadas da história.


Era uma vez, um País de faz-de-conta.
Na ultima sexta feira a princesa chamou a fada madrinha e disse:

-Madrinha, eu quero que você transforme toda pessoa má, que existe no mundo, em sapo.

-Que seja feito.

Plim. Aconteceu. Ninguém virou sapo, mas a princesa aprendeu que pessoas totalmente boas, e totalmente más, só existem em contos de fadas e em Brasília. Como era sexta feira todos estavam de folga e ninguém foi feliz para sempre.

O Chato


-Odeio quando usam essas roupas moderninhas. Porque as pessoas não se vestem como pessoas?
-Prefere um estilo mais clássico e social então?
-Odeio quem anda como um pinguim. Todos esses acessórios... Para que?
-Ontem fui ao cinema ver 2012.
-Nossa odiei esse filme. Filme vazio. Se não fosse pelos efeitos especiais...
-Depois fui ao Mcdonalds. Adoro o Mc.
-Odeio. Aquele molho especial parece creme de catarro. Cara como eu odeio Mcdonalds.
-Você é meio estranho. Depois peguei o carro e voltei pra casa. O trânsito tava meio agitado.
-Cara! Odeio dirigir. Odeio os babaquinhas que ficam se achando com seu carrão. Também me irritam aquelas piriguetes que não podem ver um playboy que já vão logo se assanhando.
-Meu, como você é negativo. O que mais você odeia?
-Odeio essa sociedade animalesca, odeio futilidades, odeio metidos á intelectualóide, odeio consumidores, vendedores, caixas de banco, bancos de praça, ônibus, moto, povo, shopping, parque, gordura, leite, chefe e mais algumas coisinhas que não lembro agora.
-Caramba, não tem nada que você goste.
-Claro que sim. Adoro falar mal das coisas que odeio.

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

O Cavaleiro e o Amuleto.


Essa é a história de um cavaleiro da idade média. Não lembro de que país era nem a que reino pertencia, mas lembro de sua sina.
O cavaleiro era uma pessoa não muito boa. Ele era politicamente bem incorreto. Nunca havia vencido uma batalha de forma limpa. Sempre teve vontade de lutar da maneira correta, mas não tinha talento e acabava sempre encostado na parede. Na hora que batia o desespero fazia qualquer coisa para ganhar. Assim conseguiu algumas vitórias e muitas derrotas. As vitórias tinham um gosto amargo. O gosto amargo de não se fazer a coisa certa. O medo também o atrapalhava. O medo de falhar.
O cavaleiro desde muito cedo foi visto como um jovem com enorme potencial. Um eterno potencial que nunca foi nem seria atingido. Isso lhe dava a sensação de que tudo que ela fazia era uma grande e enorme farsa. Que nunca teve chance de ser quem todos achavam que ele seria.
Até que um belo dia ele achou um amuleto. Por algum motivo ele amou o amuleto desde a primeira vez que percebeu que a peça lhe pertencia. O amuleto funcionava como uma fonte de energia. Na presença do amuleto tudo era mais gostoso. Tudo ganhava um sentido imperceptível para o cavaleiro até então. O amuleto passou a ser a vida dele. Seu presente e seu futuro. O passado, de alguma forma estranha, tinha deixado de existir. O amuleto ensinou-lhe que a vitória limpa podia existir.
O tempo foi passando e o amuleto parecia que estava perdendo a sua força. Já não trazia toda felicidade de outrora. Ainda assim ele sabia que amava aquele objeto de luz. Certo dia o cavaleiro pensou que talvez sua jóia precisasse de um tempo para recuperar tudo que já havia extraído dela. E ele esperou. Com muita dor ele esperou. Sem seu amuleto ele já não era mais nada. Nem se lembrava de como era antes da sua fonte de luz aparecer. As derrotas voltaram a acontecer. Mas ele sempre teve uma convicção: “Ele vai voltar. Fomos feitos um para o outro. Em breve, vai voltar.”
Os dias foram passando e o amuleto, ou a imagem que ele ainda tinha do amuleto, foi ficando cada vez mais distante. “Não quero mais viver” ele pensou. Pensou porque tudo que ele tinha era seu amuleto e sua dignidade. Quando o objeto se foi, ele se afundou tanto em suas próprias frustrações. Esqueceu da lição sobre vitórias limpas e mergulhou num poço sem fim. Acabou perdendo também sua dignidade. Nada mais restava.
Um dia remexendo em um casaco velho encontrou a sua peça rara e chorou. Chorou porque percebeu que seu amuleto sempre esteve ali e ele deixou de usá-lo. Não por opção, mas porque não sabia mais usá-lo. Tanto tempo afastados deixaram o cavaleiro sem rumo. Ele não confiava mais que poderia vencer o menor obstáculo que aparecesse. Em certo dia o cavaleiro, que já andava depressivo por não conseguir mais compreender o porquê de seu amuleto não funcionar, pensou que talvez devesse deixar o ele ir embora. Talvez para a posse de algum cavaleiro que merecesse ser dono de tamanha dádiva. Foi o pior momento da sua vida. Ele sentiu como se lhe arrancassem o coração do peito. Nada mais fazia sentido. Foi atrás da sua razão de viver. Sem essa razão não havia mais objetivos na vida. Ele sabia que se arrependeria muito se isso acontecesse.
Ele chorou, esperneou, mostrou que poderia ser feliz se tivesse seu amuleto de volta. O amuleto voltou para suas mãos. Depois disso ele percebeu que o amuleto nunca perdeu sua força. O cavaleiro que já não conseguia mais ver o bem que o amuleto fazia a ele. Ele então compreendeu que enquanto ele tivesse vontade de lutar, o amuleto estaria estar com ele. Se ele foi feliz para sempre? Quem sabe dizer?

terça-feira, 10 de novembro de 2009

O diário.

Segunda – Feira:

Agora vai. Essa semana começo meu regime. Tá certo que eu exagerei no fim de semana e por isso tô me sentindo culpada. Mas hoje começo minha metamorfose. Descobri uma dieta ótima. A prima da amiga da vizinha da Carlinha fez e deu certo. Perdeu cinco quilos em uma semana. É a dieta do pula. Come um dia, pula um. Hoje é dia de pular. Essa larva vai virar borboleta.

Terça – Feira:

Está dando certo. Ontem no almoço só bebi dois copos de água. O café da tarde e meia torrada e chá sem gelo. Hoje é o dia de comer. Devo ter perdido dez quilos (sou muito otimista). Amanhã conto como foi. Vou comer só o necessário.

Quarta – Feira:

Aff... Exagerei eu acho. No café da manhã comi duas laranjas inteiras. No almoço três alfaces e um copo de água... Com gelo. Estou péssima. Já ganhei tudo que perdi anteontem. E minha vista está tremendo. Acho que leva um tempo para me adaptar. Hoje é o dia de não comer. To maluca. O chocolate gritou meu nome a noite toda. Mas to determinada.

Quinta-Feira:

Meu médico acabou de sair. Bebi dezesseis litros de água. Parecia um colchão d’água ambulante. Mas to muito satisfeita. Não comi nada. Desmaiei no trabalho. Meu chefe acha que sou hipoglicêmica e me deu um pacotão de doces. Mas eu resisti e não comi. Por isso nem quero imaginar que delícia seria aqueles bombons todos derretendo na minha boca. Sentindo um deles se desfazer e ir absorvendo aquele sabor de castanhas com chocolate. O leve contraste da adstringência da castanha, com seu leve tanino, e a doçura deliciosa do chocolate. Pedacinhos vão se transformando em... Preciso vomitar. Minha barriga agitou. Hoje era dia de comer, mas estou tão cheia de água que não consigo nem imaginar como seria comer.

Sexta – Feira:

Até que enfim um dia bom. Ontem tomei algumas decisões. Percebi que a estética não é tudo. Que é muito mais fácil encontrar um novo marido tendo conteúdo. Não tem nada a ver isso de beleza exterior. O importante é o que trago aqui dentro. Ontem resolvi acabar com tudo. Comecei acabando com tudo que tinha na geladeira. Depois acabei com o que tinha na dispensa também. Sobrou o pacote de doce. Ele vai ser o símbolo da minha mudança. A partir de agora sou uma nova mulher. Tenho autocontrole... Nossa sem perceber enquanto escrevia comi um dos bombons. Nem prestei atenção no gosto. Vou comer só mais um.

Sábado:

Que felicidade. Ontem saí e mexeram comigo e depois ainda recebi uma cantada. Entrei no barzinho e ouvi o cara da mesa gritar: “Garçom, cancela a batata que o filé chegou!” Fiquei corada. Acho que apostar no conteúdo fez toda a diferença. Ele também percebeu toda a confiança que eu estava sentindo sendo uma nova mulher. Depois ele chegou pra mim e perguntou “E aí? Rola?” Eu disse que ia pensar e hoje respondia. Tava louca para dizer que rolava, mas precisava mostrar a nova mulher que sou. Amanhã Conto como foi. To morrendo de fome. Vou comer.

Domingo:

Fui lá toda decidida e disse: “Rola.” Curta e direta. Demonstrei toda minha confiança e conteúdo. Aí ele disse: “Então deita na ladeira que eu empurro! Baleia.” Fiquei chocada. O Pacote de doce também sumiu. Tudo bem, eu dei umas beliscadas. Mas alguém deve ter entrado aqui e comido. Não me lembro de ter sido eu. Estou deprimida. Mas hoje vou exagerar. Amanhã vou começar um novo regime e compenso. Amanhã serei uma nova mulher.

terça-feira, 13 de outubro de 2009

A Incrível História dos Invencíveis Super Heróis Brasileiros.

O Homem Invisível estava muito cabisbaixo no encontro anual de Super Heróis do Brasil. Esse ano realizado em Curitiba-PR. Quando o Homem Sertanejo (Aquele cara que pode quebrar vidros e deixar pessoas surdas, burras e com péssimo gosto musical através do canto) vendo o amigo (que talvez nem fosse tão invisível assim) em tão profunda amargura se aproximou.
-Meu amigo sumidinho... O que aconteceu? Há muito tempo não te vejo (ic!) assim.
-Pois é Taquara Rachada (Identidade secreta do Homem Sertanejo) estou assim por que descobri a mulher da minha vida.
-Mas que bela notícia, eu já consigo até imaginar uma música para vocês... “O meu amigo Homem Invisível achou uma mulher incrível... Agora está perdido de amor... Volta para ele mulher incrível... ele não pode mais agüentar tanta doooooooooor...”
-Ô taquara, não é por nada não, mas essa música tá um lixo.
-Então vai fazer sucesso... Anota ai. Quer apostar quanto?
-Nada não, estou desanimado demais para apostar.
-Mas o que aconteceu?
-Não encontro minha amada. Acho que está perdida para sempre.
-Como ela se chama?
-Mulher Transparente. Ela é linda, eu imagino.
-Onde você a viu (ic!) pela ultima vez?
-Não sei. Perder mulher já é tão fácil, imagina sendo transparente.
-Vou fazer uma música para chamar ela, com minhas cordas vocais de golfinho consigo emitir um som que pode ser ouvido em raio de 50 quilômetros.
-Não, por favor, não. Prefiro arriscar perdê-la para sempre a ouvir essa voz de anão com o dedo enfiado no toba.
-Pois então fica com outra, aqui mesmo tem várias opções, com essa revolução cultural que temos por aí são as hortifrutigranjeiras que estão em alta. Olha ali a Mulher Melancia. Sempre acho que ela está te dando mole.
-Melancia não é negócio. Sempre dá pra pelo menos seis. Sou mais a Mulher Transparente.
-E a Mulher Banana?
Não rola. Fiquei sabendo que a identidade secreta dela é o Rambo, O motoboy da agência de super heróis.
-Ih rapaz, bem que eu desconfiei que àquela história que ela tinha um caroço de ameixa encravada na garganta (teoricamente resultante da luta contra a Ameixa Negra) fosse cascata. Sempre me pareceu um gogó.
-Pois é com um gogó daquele, imagina o tamanho da Banana. Sou mais a Mulher Transparente.
-E a Mulher Lagosta?
-Sem chance, Mulher Lagosta só rico come. Sou mais a Mulher Transparente.
-E se tentasse uma que já tenha dinheiro? Tipo a Mulher Divórcio?
-Não o Homem Otário disse que ela é a maior pistoleira. Sem contar que agora ele tá pensando em mudar o nome para Mulher Furacão.
-Santa idéia Homem Invisível, acho que é uma boa opção. Mulher Furacão. Quente e Úmida.
-Quando chega. Quando vai embora ela leva teu carro e tua casa. Sou mais a Mulher Transparente.
-Sei de uma que você não vai encontrar defeito. A rainha das Mulheres Objeto (Não entenda mal, Objeto apenas por ter um nome de algum objeto sempre ligando ao substantivo “Mulher”. Sem nenhum trocadilho maldoso. Por favor). Além de tudo tem o pai famoso. Dizem que o pai dela pode até virar o ministro dos Super Heróis.
-Homem Sertanejo, existe alguém assim?
-Claro que sim. A Pretta Ágil.
-... Sou mais a Mulher Transparente.
-Mas que bosta. Porque você quer tanto essa mulher que acabou de conhecer? Você nunca a viu nem nunca verá. Seu casamento vai ser vazio, sem emoção uma rotina só. Vai que ela é gorda?
-Não me importo.
-Vai que ela é banguela?
-Não me importo.
-Vai que ela é homem???
-Não me importo.
-Mas, Homem Invisível, para que cargas d’água você quer tanto essa Mulher Transparente?
-Para fazermos coisas nunca antes vistas.

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

A Queda



Toca seu ramal e você atende.

-Pode vir até minha sala por gentileza?

Era o chefe. O tom de voz não deixa dúvida, “O assunto é sério”. O coração acelera e você sente um nó incômodo na garganta. Parece uma presa acuada quando senta em frente àquela mesa, que nunca havia parecido tão grande quanto agora. Vem a notícia.

-Eu não estou satisfeito com seu trabalho.

Não, ele nunca vai dizer que te rejeita. Um chefe dificilmente vai fazer o papel do carrasco, não por você, é pelos seus amigos que continuam na empresa. É a confiança deles que um chefe não pode perder.

-A diretoria me informou que não está satisfeita com o seu trabalho.

Não, seu chefe nunca vai dizer que a culpa é sua. Estaria sendo desumano se apontasse seus erros te ajudando a corrigir seus defeitos para um possível próximo emprego. Ele não vai atirar pedras em um virtual desempregado. A cultura de amor ao próximo não vai deixá-lo fazer isso. A culpa nunca é de ninguém. Assim, ninguém pode voltar atrás.

-Estamos tendo dificuldades financeiras e infelizmente algumas pessoas serão cortadas.

Sim, agora sim. Foi uma simples obra do acaso. Você é azarado. Agora é um pimentão azarado. O sangue sobe rapidamente a cabeça e você tem duas opções: Esbravejar e sair com pelo menos um pouco do seu orgulho regenerado, ou abaixar a cabeça e aceitar o quanto você é desprezível e incapaz de trabalhar nesta empresa como o Júlio, aquele cara que não faz nada, não sabe nada e ganha mais que você.Você sai sem falar uma só palavra.

Depois vem o desespero. Você sente como se arrancassem sua perna. Porque é uma delícia trabalhar aqui? Não, definitivamente não. Mas, mexeram na sua rotina. Acabou o cafezinho na sala da secretária do chefe. Acabaram os happy hours e os almoços com os colegas. “E agora?” Como chegar a sua sala e contar pra todo mundo que foi demitido? Todos vão comentar quando passar no corredor com suas tralhas, que você acumulou nesses longos seis meses que passou aqui dentro. Vergonha.

Chega em casa. Como contar para esposa? “E se ela não me quiser mais”. De fato isso vai acontecer, mas não agora. Seria desumano da parte dela atirar pedras no mais novo demitido da família. Mas também não virá o apoio familiar. Ela também te culpa. Não importa se seu chefe é um mal amado que decidiu te demitir por que o garoto do Xerox, com quem ele tem um caso, broxou na noite anterior. A culpa é sempre sua. E você vai novamente sentir... Vergonha.

Depois a depressão. Três meses sem pôr o nariz para fora. A cobrança da mulher incessante e a pior cobrança de todos: A sua. Dores de cabeça e a ulcera vão fazer você se concentrar no problema. Mas, a falta de confiança vai te estagnar dentro do seu quarto. E agora? Já com o aluguel atrasado e esperando sair o seguro desemprego você desiste e num ato desesperado uma busca de autodestruição. A vida assim já não faz mais sentido. Não restam opções. O buraco é tão fundo que não existe mais o que fazer. Então você faz a única coisa que realmente pode acabar com essa tortura: Procura outro emprego. Vergonha...

Meses a fio mendigando algum posto no concorrido mercado de trabalho. Todos os ramos estão contratando gente a rolé, menos o seu. Você tenta mudar de ramo. Mas, tudo que você faz qualquer adolescente faz pela metade do que você precisa ganhar.

Uma indicação. “Disso que eu precisava”. Uma amiga dos tempos de faculdade te indicou numa empresa que tem a vaga perfeita para você. Ganha um pouco menos que o ultimo emprego, mas é melhor que nada. É mais longe de casa, mas você não se importa em acordar um pouquinho mais cedo. O trabalho é mais cansativo, mas você nunca teve medo de trabalhar. A hora da euforia. Orgulho. Você é o mais novo empregado. Orgulho. Ganha uma sala espaçosa e uma ajudante que parece a Miss Segundo Grau. Orgulho.

Começa um novo círculo de amizade. Os lugares são outros, mas o gosto do café e dos happy hours são os mesmos. Então você demora uns seis meses para se adaptar a nova rotinha, e, quando consegue:

Toca seu ramal e você atende. -Pode vir até minha sala por gentileza?

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

A Maldição do Sapato Novo.



Vou começar com uma história que ouço desde pequeno. Meu pai sempre foi conhecido por sua grande honestidade. Você deve conhecer alguém assim. Ele simplesmente era incapaz de passar alguém para trás. Nunca ficou com troco recebido a mais de uma operadora de caixa distraída, exceto essa vez.
Ao entrar na loja já gostou do primeiro modelo de sapato que estava exposto na vitrine. Sem pestanejar entrou e pediu para experimentar um preto que estava em destaque ao lado das sandálias de couro cru. A vendedora trouxe um número menor.
-Moça, o sapato está apertado. Também pudera, calço 39. Esse que a senhora me trouxe é 38.
-Porque não disse antes?
-Mas eu dis...
Ela já havia saído. Meu pai ficou perplexo diante de tal demonstração de mal humor. Isso é curioso. Estamos acostumados a encontrar vendedores sempre sorridentes, o que é extremamente irritante. Mas, quando encontramos vendedores mal humorados, parece ainda pior. Essa enorme classe de trabalhadores não tem vez. Se estiver sorrindo? Irritante! Se não sorrir... Também. A pior experiência que uma pessoa pode ter é quando não sabe se o vendedor está sorrindo ou não, ficamos aflitos. Por isso o telemarketing é tão indesejado.  Como confiar em um vendedor que não podemos verificar se está sorrindo ou não? Fora que, eu particularmente me sinto sem alternativas quando entro uma loja. Você mal entra e já vem logo alguém te atacando.
-O senhor deseja alguma coisa?
-Não obrigado, só estou dando uma olhadinha.
Esse é o ponto crítico. Se eu não dispensasse o vendedor não teria paz para decidir o que comprar. Ele como bom vendedor (suponhamos que seja bom, porque, como dispensei logo de cara, nunca saberemos) vai tentar me empurrar o quer que ele tenha sido treinado para empurrar. Bom, me livrei dele e escolhi sozinho o que quero comprar. Agora preciso achar um vendedor para tirar as ultimas dúvidas sobre garantia e um possível desconto. Onde está o maldito vendedor? Sim eles somem com a mesma velocidade em que aparecem.
A vendedora voltou com um par de sapatos número 39 na cor marrom.
-Veja bem moça, eu quero sapatos pretos. Por isso apontei para o preto na vitrine.
-Acha que sou palhaça? Agora vai levar esse.
Ele mal podia acreditar no que estava acontecendo. Era um insulto tão grande estar comprando e ser tratado daquela forma que, ele não agüentou, comprou o marrom mesmo. Esqueci de mencionar que ele também fazia de tudo para evitar uma confusão. Na hora de pagar os sapatos, que custavam 60 reais, ele tirou uma nota de R$ 100,00 do bolso e entregou a moça que fez cara feia e resmungou baixinho, alto o suficiente apenas para meu pai ouvir.
-Nem pra ter trocado, velho gordo.
Ele por achar que não tinha ouvido direito não reclamou. Ela devolveu o troco de 50 reais. Ou seja, com uma nota de 10 a mais do que precisava. Meu pai conferiu o troco, mas na hora estava tanta raiva por estar sendo tratado daquela maneira que ficou quieto e fingiu que não percebeu o erro da vendedora mal amada e distraída. Saiu da loja e foi embora sentindo uma emoção diferente. Um gostinho de adrenalina por estar fazendo uma coisa tão errada. Sentiu-se o máximo. Mas, com o passar das horas foi sentindo um incômodo apertar no dedinho do pé esquerdo. Trabalhou o dia todo com aquele dedo sempre apertado. Doendo muito, muito mesmo. A noite descalçou o sapato e examinou seu próprio pé. Aparentemente não havia qualquer marca que indicasse uma ferida. Mas, pelas horas a fio esmagando aquele pequeno dedo, a dor era incontrolável. Ele pensou: “Não há duvida. É um castigo de Deus. Não devia ter ficado com aquele troco.” No dia seguinte acordou mais cedo para passar na loja devolver o troco e trocar o sapato.
-Bom, dia. Ontem, quando a senhora me deu o troco, me deu 10 reais a mais que só percebi quando cheguei em casa. (ruborizou por estar mentindo).
Ela olhou para ele com cara de quem não acreditava que ele não soubesse, e com aquele olhar gelado, fez com que ele se sentisse o pior dos ladrões.
-Olha só, o sapato está me apertando o pé esquerdo. Como faço para trocar?
-Você trouxe a nota?
-Nossa, nem havia percebido que a senhora não me deu a nota (aqui acabou de denunciar que ficou nervoso por ter percebido que tinha mais dinheiro no troco do que lhe era devido).
-Sem nota não posso fazer a troca.
-Mas eu tenho meus direi...
Novamente ela virou as costas e sumiu. Ele ficou ali sozinho na loja. Saiu pensando que nunca deveria ter entrado nem a primeira e nem a segunda vez na loja. Estranhamente o sapato parou de machucar o seu pé. Todas as noites antes de dormir, ele pensava: “Talvez nunca tenha doído”.

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Como escolher?


O título deve definir o blog. Definir tudo que aqui irá existir. Tudo que ainda está por vir. Mas, há como prever? Acho que é por isso que a maioria dos autores nomeia seus livros depois de prontos... Quem dera um blog pudesse mudar de nome conforme o vento o levasse. Com essas dificuldades vamos começar do princípio:
Por que fazer um blog? Um blog surge na necessidade de um Blogueiro de expressar pensamentos e opiniões e, espero que seja o caso, alguém, em algum, lugar de querer ler. Para um blog ter sucesso precisará que várias pessoas queiram ler o que nele está exposto. "Cultura de massa", um apocalíptico ou outro pode reclamar. "Alienação", dirá aquele Adorniano mais exaltado. "Troca de idéias" eu responderei.  Como passar essas idéias de forma fácil e com uma boa dose de entretenimento? Crônicas.
Um bom nome deve rimar? "Você tá de brincadeira", dirá aquele rapaz que estuda literatura moderna. "Estamos aqui para confundir", respondo com o orgulho todo em pé, como um grito de independência que o blog poderia, mas não vai representar. Está decidido, vamos rimar.
Qual nome escolher? Quando penso em “Crônicas”, invariavelmente penso em “cômicas”. Talvez pelo som parecido, na verdade não sei explicar. Mas se pararmos para pensar em expressões como: “Crônicas Cômicas”, “Cômicas Crônicas” ou ainda, “Crônicas e cômicas”, não parecem expressões Cacofónicas? Como se uma Crônica ser cômica não fosse mais que uma obrigação. Longe de mim, dizer que essa nobre escola literária tem que sempre ter graça. Mas que tem alvará para ser sempre que quiser, isso tem.
Já que vamos rimar vamos começar a estudar o caso. “Crônicas” rima com... “Anatômicas”, “Econômicas”, “Fisionômicas”, “Gastronômicas”. Começo a acha que esse não é o ponto.
Teremos que saber o que o site tem por objetivo novamente. Hmm... Acho que era expressar idéias através de crônicas. Idéias do que? Só idéias? Então talvez o título que melhor possa representar seja “Crônicas Afônicas”.  Histórias que não dizem nada sobre coisa nenhuma. Mas não quero que seja assim. Eu quero que tenham som, que tenham voz, que representem algo, que mostrem ao que vieram. Quero crônicas que mostrem o que o mundo representa para mim... Eu quero “Crônicas Icônicas”.