Crônicas Mais Lidas

A Maldição do Sapato Novo.

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Falta de um motivo.

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O Menor Conto de Fadas da História.

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

A Queda



Toca seu ramal e você atende.

-Pode vir até minha sala por gentileza?

Era o chefe. O tom de voz não deixa dúvida, “O assunto é sério”. O coração acelera e você sente um nó incômodo na garganta. Parece uma presa acuada quando senta em frente àquela mesa, que nunca havia parecido tão grande quanto agora. Vem a notícia.

-Eu não estou satisfeito com seu trabalho.

Não, ele nunca vai dizer que te rejeita. Um chefe dificilmente vai fazer o papel do carrasco, não por você, é pelos seus amigos que continuam na empresa. É a confiança deles que um chefe não pode perder.

-A diretoria me informou que não está satisfeita com o seu trabalho.

Não, seu chefe nunca vai dizer que a culpa é sua. Estaria sendo desumano se apontasse seus erros te ajudando a corrigir seus defeitos para um possível próximo emprego. Ele não vai atirar pedras em um virtual desempregado. A cultura de amor ao próximo não vai deixá-lo fazer isso. A culpa nunca é de ninguém. Assim, ninguém pode voltar atrás.

-Estamos tendo dificuldades financeiras e infelizmente algumas pessoas serão cortadas.

Sim, agora sim. Foi uma simples obra do acaso. Você é azarado. Agora é um pimentão azarado. O sangue sobe rapidamente a cabeça e você tem duas opções: Esbravejar e sair com pelo menos um pouco do seu orgulho regenerado, ou abaixar a cabeça e aceitar o quanto você é desprezível e incapaz de trabalhar nesta empresa como o Júlio, aquele cara que não faz nada, não sabe nada e ganha mais que você.Você sai sem falar uma só palavra.

Depois vem o desespero. Você sente como se arrancassem sua perna. Porque é uma delícia trabalhar aqui? Não, definitivamente não. Mas, mexeram na sua rotina. Acabou o cafezinho na sala da secretária do chefe. Acabaram os happy hours e os almoços com os colegas. “E agora?” Como chegar a sua sala e contar pra todo mundo que foi demitido? Todos vão comentar quando passar no corredor com suas tralhas, que você acumulou nesses longos seis meses que passou aqui dentro. Vergonha.

Chega em casa. Como contar para esposa? “E se ela não me quiser mais”. De fato isso vai acontecer, mas não agora. Seria desumano da parte dela atirar pedras no mais novo demitido da família. Mas também não virá o apoio familiar. Ela também te culpa. Não importa se seu chefe é um mal amado que decidiu te demitir por que o garoto do Xerox, com quem ele tem um caso, broxou na noite anterior. A culpa é sempre sua. E você vai novamente sentir... Vergonha.

Depois a depressão. Três meses sem pôr o nariz para fora. A cobrança da mulher incessante e a pior cobrança de todos: A sua. Dores de cabeça e a ulcera vão fazer você se concentrar no problema. Mas, a falta de confiança vai te estagnar dentro do seu quarto. E agora? Já com o aluguel atrasado e esperando sair o seguro desemprego você desiste e num ato desesperado uma busca de autodestruição. A vida assim já não faz mais sentido. Não restam opções. O buraco é tão fundo que não existe mais o que fazer. Então você faz a única coisa que realmente pode acabar com essa tortura: Procura outro emprego. Vergonha...

Meses a fio mendigando algum posto no concorrido mercado de trabalho. Todos os ramos estão contratando gente a rolé, menos o seu. Você tenta mudar de ramo. Mas, tudo que você faz qualquer adolescente faz pela metade do que você precisa ganhar.

Uma indicação. “Disso que eu precisava”. Uma amiga dos tempos de faculdade te indicou numa empresa que tem a vaga perfeita para você. Ganha um pouco menos que o ultimo emprego, mas é melhor que nada. É mais longe de casa, mas você não se importa em acordar um pouquinho mais cedo. O trabalho é mais cansativo, mas você nunca teve medo de trabalhar. A hora da euforia. Orgulho. Você é o mais novo empregado. Orgulho. Ganha uma sala espaçosa e uma ajudante que parece a Miss Segundo Grau. Orgulho.

Começa um novo círculo de amizade. Os lugares são outros, mas o gosto do café e dos happy hours são os mesmos. Então você demora uns seis meses para se adaptar a nova rotinha, e, quando consegue:

Toca seu ramal e você atende. -Pode vir até minha sala por gentileza?

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

A Maldição do Sapato Novo.



Vou começar com uma história que ouço desde pequeno. Meu pai sempre foi conhecido por sua grande honestidade. Você deve conhecer alguém assim. Ele simplesmente era incapaz de passar alguém para trás. Nunca ficou com troco recebido a mais de uma operadora de caixa distraída, exceto essa vez.
Ao entrar na loja já gostou do primeiro modelo de sapato que estava exposto na vitrine. Sem pestanejar entrou e pediu para experimentar um preto que estava em destaque ao lado das sandálias de couro cru. A vendedora trouxe um número menor.
-Moça, o sapato está apertado. Também pudera, calço 39. Esse que a senhora me trouxe é 38.
-Porque não disse antes?
-Mas eu dis...
Ela já havia saído. Meu pai ficou perplexo diante de tal demonstração de mal humor. Isso é curioso. Estamos acostumados a encontrar vendedores sempre sorridentes, o que é extremamente irritante. Mas, quando encontramos vendedores mal humorados, parece ainda pior. Essa enorme classe de trabalhadores não tem vez. Se estiver sorrindo? Irritante! Se não sorrir... Também. A pior experiência que uma pessoa pode ter é quando não sabe se o vendedor está sorrindo ou não, ficamos aflitos. Por isso o telemarketing é tão indesejado.  Como confiar em um vendedor que não podemos verificar se está sorrindo ou não? Fora que, eu particularmente me sinto sem alternativas quando entro uma loja. Você mal entra e já vem logo alguém te atacando.
-O senhor deseja alguma coisa?
-Não obrigado, só estou dando uma olhadinha.
Esse é o ponto crítico. Se eu não dispensasse o vendedor não teria paz para decidir o que comprar. Ele como bom vendedor (suponhamos que seja bom, porque, como dispensei logo de cara, nunca saberemos) vai tentar me empurrar o quer que ele tenha sido treinado para empurrar. Bom, me livrei dele e escolhi sozinho o que quero comprar. Agora preciso achar um vendedor para tirar as ultimas dúvidas sobre garantia e um possível desconto. Onde está o maldito vendedor? Sim eles somem com a mesma velocidade em que aparecem.
A vendedora voltou com um par de sapatos número 39 na cor marrom.
-Veja bem moça, eu quero sapatos pretos. Por isso apontei para o preto na vitrine.
-Acha que sou palhaça? Agora vai levar esse.
Ele mal podia acreditar no que estava acontecendo. Era um insulto tão grande estar comprando e ser tratado daquela forma que, ele não agüentou, comprou o marrom mesmo. Esqueci de mencionar que ele também fazia de tudo para evitar uma confusão. Na hora de pagar os sapatos, que custavam 60 reais, ele tirou uma nota de R$ 100,00 do bolso e entregou a moça que fez cara feia e resmungou baixinho, alto o suficiente apenas para meu pai ouvir.
-Nem pra ter trocado, velho gordo.
Ele por achar que não tinha ouvido direito não reclamou. Ela devolveu o troco de 50 reais. Ou seja, com uma nota de 10 a mais do que precisava. Meu pai conferiu o troco, mas na hora estava tanta raiva por estar sendo tratado daquela maneira que ficou quieto e fingiu que não percebeu o erro da vendedora mal amada e distraída. Saiu da loja e foi embora sentindo uma emoção diferente. Um gostinho de adrenalina por estar fazendo uma coisa tão errada. Sentiu-se o máximo. Mas, com o passar das horas foi sentindo um incômodo apertar no dedinho do pé esquerdo. Trabalhou o dia todo com aquele dedo sempre apertado. Doendo muito, muito mesmo. A noite descalçou o sapato e examinou seu próprio pé. Aparentemente não havia qualquer marca que indicasse uma ferida. Mas, pelas horas a fio esmagando aquele pequeno dedo, a dor era incontrolável. Ele pensou: “Não há duvida. É um castigo de Deus. Não devia ter ficado com aquele troco.” No dia seguinte acordou mais cedo para passar na loja devolver o troco e trocar o sapato.
-Bom, dia. Ontem, quando a senhora me deu o troco, me deu 10 reais a mais que só percebi quando cheguei em casa. (ruborizou por estar mentindo).
Ela olhou para ele com cara de quem não acreditava que ele não soubesse, e com aquele olhar gelado, fez com que ele se sentisse o pior dos ladrões.
-Olha só, o sapato está me apertando o pé esquerdo. Como faço para trocar?
-Você trouxe a nota?
-Nossa, nem havia percebido que a senhora não me deu a nota (aqui acabou de denunciar que ficou nervoso por ter percebido que tinha mais dinheiro no troco do que lhe era devido).
-Sem nota não posso fazer a troca.
-Mas eu tenho meus direi...
Novamente ela virou as costas e sumiu. Ele ficou ali sozinho na loja. Saiu pensando que nunca deveria ter entrado nem a primeira e nem a segunda vez na loja. Estranhamente o sapato parou de machucar o seu pé. Todas as noites antes de dormir, ele pensava: “Talvez nunca tenha doído”.

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Como escolher?


O título deve definir o blog. Definir tudo que aqui irá existir. Tudo que ainda está por vir. Mas, há como prever? Acho que é por isso que a maioria dos autores nomeia seus livros depois de prontos... Quem dera um blog pudesse mudar de nome conforme o vento o levasse. Com essas dificuldades vamos começar do princípio:
Por que fazer um blog? Um blog surge na necessidade de um Blogueiro de expressar pensamentos e opiniões e, espero que seja o caso, alguém, em algum, lugar de querer ler. Para um blog ter sucesso precisará que várias pessoas queiram ler o que nele está exposto. "Cultura de massa", um apocalíptico ou outro pode reclamar. "Alienação", dirá aquele Adorniano mais exaltado. "Troca de idéias" eu responderei.  Como passar essas idéias de forma fácil e com uma boa dose de entretenimento? Crônicas.
Um bom nome deve rimar? "Você tá de brincadeira", dirá aquele rapaz que estuda literatura moderna. "Estamos aqui para confundir", respondo com o orgulho todo em pé, como um grito de independência que o blog poderia, mas não vai representar. Está decidido, vamos rimar.
Qual nome escolher? Quando penso em “Crônicas”, invariavelmente penso em “cômicas”. Talvez pelo som parecido, na verdade não sei explicar. Mas se pararmos para pensar em expressões como: “Crônicas Cômicas”, “Cômicas Crônicas” ou ainda, “Crônicas e cômicas”, não parecem expressões Cacofónicas? Como se uma Crônica ser cômica não fosse mais que uma obrigação. Longe de mim, dizer que essa nobre escola literária tem que sempre ter graça. Mas que tem alvará para ser sempre que quiser, isso tem.
Já que vamos rimar vamos começar a estudar o caso. “Crônicas” rima com... “Anatômicas”, “Econômicas”, “Fisionômicas”, “Gastronômicas”. Começo a acha que esse não é o ponto.
Teremos que saber o que o site tem por objetivo novamente. Hmm... Acho que era expressar idéias através de crônicas. Idéias do que? Só idéias? Então talvez o título que melhor possa representar seja “Crônicas Afônicas”.  Histórias que não dizem nada sobre coisa nenhuma. Mas não quero que seja assim. Eu quero que tenham som, que tenham voz, que representem algo, que mostrem ao que vieram. Quero crônicas que mostrem o que o mundo representa para mim... Eu quero “Crônicas Icônicas”.