quarta-feira, 16 de setembro de 2009

A Maldição do Sapato Novo.



Vou começar com uma história que ouço desde pequeno. Meu pai sempre foi conhecido por sua grande honestidade. Você deve conhecer alguém assim. Ele simplesmente era incapaz de passar alguém para trás. Nunca ficou com troco recebido a mais de uma operadora de caixa distraída, exceto essa vez.
Ao entrar na loja já gostou do primeiro modelo de sapato que estava exposto na vitrine. Sem pestanejar entrou e pediu para experimentar um preto que estava em destaque ao lado das sandálias de couro cru. A vendedora trouxe um número menor.
-Moça, o sapato está apertado. Também pudera, calço 39. Esse que a senhora me trouxe é 38.
-Porque não disse antes?
-Mas eu dis...
Ela já havia saído. Meu pai ficou perplexo diante de tal demonstração de mal humor. Isso é curioso. Estamos acostumados a encontrar vendedores sempre sorridentes, o que é extremamente irritante. Mas, quando encontramos vendedores mal humorados, parece ainda pior. Essa enorme classe de trabalhadores não tem vez. Se estiver sorrindo? Irritante! Se não sorrir... Também. A pior experiência que uma pessoa pode ter é quando não sabe se o vendedor está sorrindo ou não, ficamos aflitos. Por isso o telemarketing é tão indesejado.  Como confiar em um vendedor que não podemos verificar se está sorrindo ou não? Fora que, eu particularmente me sinto sem alternativas quando entro uma loja. Você mal entra e já vem logo alguém te atacando.
-O senhor deseja alguma coisa?
-Não obrigado, só estou dando uma olhadinha.
Esse é o ponto crítico. Se eu não dispensasse o vendedor não teria paz para decidir o que comprar. Ele como bom vendedor (suponhamos que seja bom, porque, como dispensei logo de cara, nunca saberemos) vai tentar me empurrar o quer que ele tenha sido treinado para empurrar. Bom, me livrei dele e escolhi sozinho o que quero comprar. Agora preciso achar um vendedor para tirar as ultimas dúvidas sobre garantia e um possível desconto. Onde está o maldito vendedor? Sim eles somem com a mesma velocidade em que aparecem.
A vendedora voltou com um par de sapatos número 39 na cor marrom.
-Veja bem moça, eu quero sapatos pretos. Por isso apontei para o preto na vitrine.
-Acha que sou palhaça? Agora vai levar esse.
Ele mal podia acreditar no que estava acontecendo. Era um insulto tão grande estar comprando e ser tratado daquela forma que, ele não agüentou, comprou o marrom mesmo. Esqueci de mencionar que ele também fazia de tudo para evitar uma confusão. Na hora de pagar os sapatos, que custavam 60 reais, ele tirou uma nota de R$ 100,00 do bolso e entregou a moça que fez cara feia e resmungou baixinho, alto o suficiente apenas para meu pai ouvir.
-Nem pra ter trocado, velho gordo.
Ele por achar que não tinha ouvido direito não reclamou. Ela devolveu o troco de 50 reais. Ou seja, com uma nota de 10 a mais do que precisava. Meu pai conferiu o troco, mas na hora estava tanta raiva por estar sendo tratado daquela maneira que ficou quieto e fingiu que não percebeu o erro da vendedora mal amada e distraída. Saiu da loja e foi embora sentindo uma emoção diferente. Um gostinho de adrenalina por estar fazendo uma coisa tão errada. Sentiu-se o máximo. Mas, com o passar das horas foi sentindo um incômodo apertar no dedinho do pé esquerdo. Trabalhou o dia todo com aquele dedo sempre apertado. Doendo muito, muito mesmo. A noite descalçou o sapato e examinou seu próprio pé. Aparentemente não havia qualquer marca que indicasse uma ferida. Mas, pelas horas a fio esmagando aquele pequeno dedo, a dor era incontrolável. Ele pensou: “Não há duvida. É um castigo de Deus. Não devia ter ficado com aquele troco.” No dia seguinte acordou mais cedo para passar na loja devolver o troco e trocar o sapato.
-Bom, dia. Ontem, quando a senhora me deu o troco, me deu 10 reais a mais que só percebi quando cheguei em casa. (ruborizou por estar mentindo).
Ela olhou para ele com cara de quem não acreditava que ele não soubesse, e com aquele olhar gelado, fez com que ele se sentisse o pior dos ladrões.
-Olha só, o sapato está me apertando o pé esquerdo. Como faço para trocar?
-Você trouxe a nota?
-Nossa, nem havia percebido que a senhora não me deu a nota (aqui acabou de denunciar que ficou nervoso por ter percebido que tinha mais dinheiro no troco do que lhe era devido).
-Sem nota não posso fazer a troca.
-Mas eu tenho meus direi...
Novamente ela virou as costas e sumiu. Ele ficou ali sozinho na loja. Saiu pensando que nunca deveria ter entrado nem a primeira e nem a segunda vez na loja. Estranhamente o sapato parou de machucar o seu pé. Todas as noites antes de dormir, ele pensava: “Talvez nunca tenha doído”.

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