-Pode vir até minha sala por gentileza?
Era o chefe. O tom de voz não deixa dúvida, “O assunto é sério”. O coração acelera e você sente um nó incômodo na garganta. Parece uma presa acuada quando senta em frente àquela mesa, que nunca havia parecido tão grande quanto agora. Vem a notícia.
-Eu não estou satisfeito com seu trabalho.
Não, ele nunca vai dizer que te rejeita. Um chefe dificilmente vai fazer o papel do carrasco, não por você, é pelos seus amigos que continuam na empresa. É a confiança deles que um chefe não pode perder.
-A diretoria me informou que não está satisfeita com o seu trabalho.
Não, seu chefe nunca vai dizer que a culpa é sua. Estaria sendo desumano se apontasse seus erros te ajudando a corrigir seus defeitos para um possível próximo emprego. Ele não vai atirar pedras em um virtual desempregado. A cultura de amor ao próximo não vai deixá-lo fazer isso. A culpa nunca é de ninguém. Assim, ninguém pode voltar atrás.
-Estamos tendo dificuldades financeiras e infelizmente algumas pessoas serão cortadas.
Sim, agora sim. Foi uma simples obra do acaso. Você é azarado. Agora é um pimentão azarado. O sangue sobe rapidamente a cabeça e você tem duas opções: Esbravejar e sair com pelo menos um pouco do seu orgulho regenerado, ou abaixar a cabeça e aceitar o quanto você é desprezível e incapaz de trabalhar nesta empresa como o Júlio, aquele cara que não faz nada, não sabe nada e ganha mais que você.Você sai sem falar uma só palavra.
Depois vem o desespero. Você sente como se arrancassem sua perna. Porque é uma delícia trabalhar aqui? Não, definitivamente não. Mas, mexeram na sua rotina. Acabou o cafezinho na sala da secretária do chefe. Acabaram os happy hours e os almoços com os colegas. “E agora?” Como chegar a sua sala e contar pra todo mundo que foi demitido? Todos vão comentar quando passar no corredor com suas tralhas, que você acumulou nesses longos seis meses que passou aqui dentro. Vergonha.
Chega em casa. Como contar para esposa? “E se ela não me quiser mais”. De fato isso vai acontecer, mas não agora. Seria desumano da parte dela atirar pedras no mais novo demitido da família. Mas também não virá o apoio familiar. Ela também te culpa. Não importa se seu chefe é um mal amado que decidiu te demitir por que o garoto do Xerox, com quem ele tem um caso, broxou na noite anterior. A culpa é sempre sua. E você vai novamente sentir... Vergonha.
Depois a depressão. Três meses sem pôr o nariz para fora. A cobrança da mulher incessante e a pior cobrança de todos: A sua. Dores de cabeça e a ulcera vão fazer você se concentrar no problema. Mas, a falta de confiança vai te estagnar dentro do seu quarto. E agora? Já com o aluguel atrasado e esperando sair o seguro desemprego você desiste e num ato desesperado uma busca de autodestruição. A vida assim já não faz mais sentido. Não restam opções. O buraco é tão fundo que não existe mais o que fazer. Então você faz a única coisa que realmente pode acabar com essa tortura: Procura outro emprego. Vergonha...
Meses a fio mendigando algum posto no concorrido mercado de trabalho. Todos os ramos estão contratando gente a rolé, menos o seu. Você tenta mudar de ramo. Mas, tudo que você faz qualquer adolescente faz pela metade do que você precisa ganhar.
Uma indicação. “Disso que eu precisava”. Uma amiga dos tempos de faculdade te indicou numa empresa que tem a vaga perfeita para você. Ganha um pouco menos que o ultimo emprego, mas é melhor que nada. É mais longe de casa, mas você não se importa em acordar um pouquinho mais cedo. O trabalho é mais cansativo, mas você nunca teve medo de trabalhar. A hora da euforia. Orgulho. Você é o mais novo empregado. Orgulho. Ganha uma sala espaçosa e uma ajudante que parece a Miss Segundo Grau. Orgulho.
Começa um novo círculo de amizade. Os lugares são outros, mas o gosto do café e dos happy hours são os mesmos. Então você demora uns seis meses para se adaptar a nova rotinha, e, quando consegue:







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